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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Cidades do GPL: Reims

A GPL Brasil aos poucos vai chegando em seus momentos decisivos nesta 8ª Temporada. Prestes a realizar sua nona etapa de um total de 14 previstas, a liga aproveita o embalo de apenas uma semana de descanso e continua a mirar suas atenções em terras francesas. Depois de descobrirmos as particularidades, histórias e curiosidades de Rouen, agora é hora de chegarmos ao nosso próximo palco: Reims.
Não muito distante de nossa visita anterior, a comuna de Reims fica localizada também ao norte da França, distante 129 km da capital Paris. Como de praxe na divisão territorial do país, Reims pertence ao departamento de Marne, com este, por sua vez, incluído na região administrativa de Champanha-Ardenas. Exemplificando, seria como a divisão encontrada no Brasil, onde as comunas se equivalem às cidades, os departamentos de equivalem aos estados e as regiões são semelhantes às regiões que encontramos por aqui. A única diferença é que na França há uma fragmentação (bem) maior, uma vez que existem 100 departamentos e 26 regiões.
Mas voltando ao assunto principal, Reims - assim como boa parte da história francesa - possui um passado de milênios. No longínquo ano de 80 a.C., a agora comuna foi fundada com o nome Durocorteron e servia na época como a capital da tribo de Remi, esta de origem belga que havia ocupado a região no século I anterior à Cristo. Daí vem a origem do nome Reims que seria logo implantando, uma espécie de eco do nome da tribo. Ainda no mesmo século, a conquista da região de Gaul por Júlio César e suas tropas romanas fizeram com que os Remi se aliassem a eles, dando cara assim a um poder agora imperial.
Com o passar do tempo, o Cristianismo começou a se estabelecer na cidade. O consul Jovinus, um grande intelectual da época, passou a repudiar e expulsar os bárbaros da região que haviam invadido Champanha no século IV. No entanto, no século seguinte Átila, o Huno, atacou diversas cidades da Gália, inclusive matando o bispo de Nicásio, morto na igreja de Reims. Tais ataques acabaram gerando a chamada Batalha dos Campos Cataláunicos.
A Catedral de Notre-Dame é o principal ponto turístico de Reims
Pelos vários séculos seguintes, Reims passou a sede dos locais de coroação dos reis da dinastia dos Capetos, como Hugo Capeto, Filipe IV, Luís X, entre outros. A partir do Século X, Reims passou a se tornar um grande centro da cultura intelectual, a partir da fundação de escolas que promoviam os ensinamentos das artes liberais.
Ao longo dos anos, Reims viu a passagem de vários reis franceses. Nesse período chegou a ser cedida para os ingleses, mas foi recuperada pelos patriotas franceses na aproximação liderada por Joana d'Arc.
As invasões ocorridas em 1814, na Guerra da Sexta Coalisão, resultaram na capturação da comuna pelas forças aliadas anti-napoleônicas. No entano, quase 60 anos depois, a vitória dos alemães na Guerra Franco-Prussiana tornou o território um reduto governamental ariano.
 Assim como a catedral, a Basílica de St. Remi é outro símbolo religioso da comuna de mais de 2 mil anos de existência
A Primeira Guerra Mundial deixou um rastro de destruição na cidade. O bombardeio e fogo alemão avariou severamente a emblemática catedral de Reims, cuja imagem seria usada depois como propaganda anti-alemãs usadas na França, por conta da agressividade germânica contra muitos patrimônios culturais franceses. Anos mais tarde, a Segunda Guerra Mundial trouxe ainda mais danos às construções de Reims, embora tenham sido menores que os da batalha anterior.
Desde então, a comuna passou por um período de relativa calmaria, concentrando imediatamente seus esforços em recuperar seus monumentos parcialmente ou quase completamente destruídos. Atualmente, estes patrimônios fazem de Reims um local visado pelos turistas, ávidos pela visitação a lugares emblemáticos como a lendária Catedral de Notre-Dame de Reims, o Palácio de Tau, a Basílica de Santo Remi, entre tantas outras igrejas, fortes e praças que valorizam a tradição milenar da região.
Quando o assunto é bebida (e boa), não há como fugir de Reims. Juntamente com Épernay e Ay, a comuna é considerada um dos grandes centros da produção de campanhe no país, inclusive com muitas casas-produtoras de renome tendo suas sedes estabelecidas na comuna.
 O Stade de Reims é um tradicional clube de futebol francês, que venceu campeonatos nacionais nas décadas de 50 e 60
Já no âmbito esportivo, há uma clara tradição nas competições automobilísticas. O circuito de Reims-Gueux foi palco de diversas edições do Grande Prêmio de Marne entre as décadas de 30 e 60, inclusive sediando etapas do GP da França de F1. O traçado de altíssima velocidade usava fragmentos de estradas públicas nos arredores da comuna de Reims.
Além do automobilismo, Reims também não esconde a paixão pelo futebol. O Stade de Reims, clube local, atualmente disputa a terceira divisão francesa, longe dos tempos de glórias dos anos 50 e 60, mas que ainda atrai muitos torcedores. Também, desde 1984, a cidade sedia a Maratona de Reims, que inclusive já foi vencida pelo brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima, em 1994. Reims também é terra natal do jogador de futebol Robert Pirès, peresente na conquista da Copa de 1998 e ídolo do Arsenal e do Villareal.
Como podemos ver, história e orgulho não devem faltar para os quase 190 mil habitantes de Reims.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um pouco de história: Rouen-Les-Essarts

A França, sem sombra de dúvidas, é um dos principais palcos do automobilismo mundial. Revelou verdadeiros gênios ao volante, como o multicampeão Alain Prost, entre outros grandes nomes das corridas, como Didier Pironi, Jacques Laffite, François Cevert e Jean Alesi. Também possui equipes de história e prestígio, como Renault e Ligier. E, por tabela, circuitos emblemáticos e que carregam consigo histórias inesquecíveis, como Le Mans Sarthe, Pau, Paul Ricard, Reims, Dijon-Prenois e mais uma proção deles que seguramente não caberiam nos dedos de duas mãos.
Entre tantos palcos ilustres da terra de Zidane, um deles não poderia faltar. Rouen-Les-Essarts é a verdadeira descrição do que é chamado de circuito que "separa os homens dos meninos". Imprevisível, perigoso, desafiador. Todos esses predicados fazem do traçado francês figurinha carimbada quando o assunto é desafio ao volante.

Rouen em seu primeiro traçado, datado de 1950
No entanto, engana-se quem pensa que o traçado está localizado na cidade que seu nome carrega. Ao contrário do que a lógica sugere, Rouen-Les-Essarts está situado em Grand-Couronne, uma pequena e pacata comuna nos arredores de Rouen. E você deve estar se perguntando: "Não fica em Rouen, fica numa comuna que não tem nada a ver com o nome do circuito...e esse Les-Essarts? O que significa isso?"
Há uma explicação. Les Essarts se trata de uma minúscula vila, também nas adjacências da região, incorporada à comuna de Grand-Couronne em 1874. Derivando daí a extensão hifenizada do nome do circuito, uma junção de Rouen e Les Essarts.
E a história da pista nos remete a um passado de 60 anos de existência. Em 1949, poucos anos depois do término do terror da Segunda Guerra Mundial, o mundo começava a voltar a reestabelecer sua rotina, incluindo nisso as atividades esportivas, como o automobilismo. Naquele ano, havia sido decidido a construção de uma nova estrada que ligaria Essarts até Orival. Partindo da oportunidade, o Automóvel Clube da Normandia (ACN) pediu a permissão para o uso da nova estrada para a realização de competições de esporte a motor. Assim que o aval foi dado, foram imediatamente iniciadas as obras de construção das áreas dos boxes, arquibancadas e paddocks.

 Uma série de obras em tempo recorde deixou Rouen pronta para receber suas primeiras competições no início dos anos 50
Após muito trabalho e com as obras prontas em um período bastante curto, o circuito de Rouen-Les-Essarts foi inaugurado (e nomeado) oficialmente pelo então presidente da ACN, Jean Savale, em 30 de julho de 1950. A data reservou também as primeiras corridas do local, entre elas o primeiro Grand Prix de Rouen, vencido pelo francês Louis Rosier, guiando um Talbot.
Nos seus primórdios, o traçado de Rouen-Les-Essarts era um pouco diferente de sua versão mais conhecida e que até hoje é eternizada no Grand Prix Legends (GPL). Por cinco anos, até 1955, a extensão da pista era de 5100 metros, mas que já chamava a atenção pela fantástica sequência inicial de curvas de média e alta velocidades em uma forte descida, sucedida por uma freada extremamente técnica, feita em curva, que levava a um apertado grampo, batizado de Nouveau Monde. Quem é adepto do GPL provavelmente considera o trecho um dos pontos mais críticos em termos de pilotagem.
Em 1955, Rouen sofreu uma mudança significativa em seu traçado. Seguindo o verdadeiro lema de "em time que está ganhando não se mexe", toda a primeira metade do circuito parmaneceu inalterada. No entanto, a pista ganhou um complemento logo após a curva Beauval. Mais obras proporcionaram uma nova seção, sendo esta de altíssima velocidade, trazendo para uma longa curva à direita (Gresil), uma grande reta que se tornou o principal ponto de ultrapassagens, seguida por uma forte freada para a inédita Scierie. Com isso, a pista passava a ter 6542 metros.

 A morte de Jo Schlesser, em 1968, afastou definitivamente a F1 do perigoso circuito
Esta configuração é considerada a mais marcante do circuito, principalmente pelo fato da versão ter recebido as máquinas da F1 entre as décadas de 50 e 60, em um total de cinco oportunidades. A primeira delas, vencida por Alberto Ascari, foi em 1952, ainda no traçado antigo. Rouen ainda abrigou a categoria nos anos de 1957, 1962, 1964 e 1968, sendo que o único piloto a triunfar nela mais de uma vez foi o norte-americano Dan Gurney, vitorioso em 1962 e 1964.
A edição de 1968, além de registrar o belga Jacky Ickx como o último vencedor da F1 em Rouen, também foi marcada pela trágica morte do francês Jo Schlesser. O heroi local, em apenas 2 voltas de corrida, escapou na Six Fréres e bateu forte em um barranco, o que levou seu Honda RA302 a ser imediatamente tomado pelas chamas, vitimando o piloto. A fatalidade culminou com o abandono da Honda da categoria, voltando somente quase 40 anos depois.

 Jacky Ickx fez prevalecer seu enorme talento sob chuva e foi o último vencedor da F1 em Rouen, no ano de 1968
Sem receber novamente a Fórmula 1, Rouen passou a sediar nos anos seguintes categorias menores, como a F2 e a F3. mesmo assim, isto não lhe espantou o rótulo de pista altamente perigosa. Em 1970, duas promessas francesas, Denis Dayan e Jean-Luc Salomon, também foram vítimas fatais das armadilhas de Rouen em um evento de Fórmula 3.
A preocupação com a segurança do circuito levou à uma série de modificações.Em 1971, como medida provisória, foram instaladas duas chicanes artificiais nas curvas Gresil e Paradis, com o intuito de reduzir a velocidade dos bólidos, que se tornavam cada vez mais potentes e violentos para as fortes exigências do traçado.
O ano seguinte trouxe uma mudança radical. A construção de uma nova autoestrada aposentou a seção de altíssima velocidade inaugurada em 1955. Com isso, a Gresil foi antecipada, sendo seguida agora por uma nova série de curvas que terminavam na Paradis, esta sendo transferida alguns metros adiante de onde se situava. A grande reta e a Scierie estavam aposentadas e, após todas essas alterações, Rouen havia sido enxugada para 5543 metros, além da adição de uma chicane logo após a primeira curva do circuito.

Cenário de uma destruição: em 1999, tudo que ainda lembrava o circuito foi colocado ao chão
O ano de 1974 trouxe a última alteração no traçado. Após a morte do piloto Gerry Birrell em uma prova de F2 no anos anterior, foi instalada uma chicane permanente na Six Fréres, local da morte de Schlesser. O circuito continuou recebendo a categoria até 1978, quando seu maior evento passou a ser a Fórmula 3 Francesa. Com o passar do tempo, Rouen foi se tornando cada vez mais perigosa e ultrapassada para as competições de esporte a motor, mesmo para os carros menos potentes.
A F3 local seguiu utilizando a pista para competições até 1993, quando finalmente resolveu interromper as atividades por lá. Foi o estopim para a morte de Rouen, que foi oficialmente fechada em 1994, por motivos econômicos e de segurança. Cinco anos mais tarde, parte da história das corridas no local sofreu uma grande perda, com a demolição das arquibancadas, boxes, sinalizações de pista e paddock. A lendária Nouveau Monde, marcante pelo seu piso semelhante à de uma calçada, foi asfaltada.

Rouen e suas variantes ao longo dos anos. Em azul, o traçado lendário, que recebeu quatro corridas de F1 e é figura carimbada até hoje no GPL (clique para ampliar)
Ainda em 1987, foi apresentado um projeto que poderia ter salvado o circuito. A nova empreitada consistia em fazer uma mudança radical na pista, a partir da utilização de um novo conjunto de seções, sob a opção de duas variantes, sendo a menor delas com 2700 metros e a maior com 4500 metros. Mas as conversas não foram adiantes e a remodelação ficou só no papel.

 A única lembrança de Rouen-Les-Essarts pode ser reconhecida pelas estradas e placas
Até hoje é possível andar normalmente com um carro convencional pelas antigas seções do traçado. Traçado que cultou gênios como Dan Gurney, Juan Manuel Fangio, Jacky Ickx, que proporcionou tragédias e tantas outras corridas memoráveis.
Um traçado que separa os homens dos meninos.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma história de quase 2 mil anos; uma história de lutas

Para muitos fãs do automobilismo em geral, a primeira memória que se pode ter quando se é escutado o termo "Rouen", é "daquele circuito que tem uma baita freada complicada em curva na descida" ou do "curvão longo que é um desafio fazer de pé embaixo".
Certamente, esta avaliação não deixa de ser correta, mas muitos podem desconhecer a história daquela cidade que tem em seu autódromo apenas uma página de um livro de quase 2 mil anos de fatos. Pois bem, essa é Rouen. Ou melhor, Ruão, para nossa língua portuguesa. Mas, dados os hábitos automobilísticos de sempre chamarmos o circuito de Rouen, vamos tratar aqui a cidade pela sua grafia tradicional da língua francesa.
Atualmente, Rouen é a capital da Alta Normandia e do departamento de Sena Marítimo, situada no noroeste da França. Considerada uma das cidades mais prósperas do país na idade média, hoje a histórica municipalidade representa um lugar de população relativamente moderada, com seus aproximadamente 110 mil habitantes e uma área de pouco mais de 21 km². Se não é um vilarejo quase abandonado, também não pode ser considerada uma grande metrópole.
Vista áerea de Rouen, cortada pelo Rio Sena

Apesar do aparente período de calmaria e forma discreta pelo qual a cidade atravessa nos dias atuais, a história de Rouen reserva fatos totalmente contrários. Fundada no primeiro século da nossa era (sob o nome Rotomagus), o município começou começou a se desenvolver dois séculos depois, a partir da forte presença cultural.
Rouen é uma cidade muito sofrida em sua história, dominada por invasões, guerras e tragédias. Primeiramente ao voltarmos ao século IX, quando a invasão dos vikings acabou por ligar as posses da Normandia à Inglaterra, através do duque Guilherme, o Conquistador. Quase 200 anos depois, em 1204, Roune voltaria a ser anexada à França, por Filipe II.
Os próximos séculos reservaram para a cidade momentos de tragédias e guerras, ao sofrer com a famosa Guerra dos Cem Anos e a temida peste negra, causadora da morte de milhões de pessoas. Ainda nesta ocasião, foi justamente em Rouen, após ser tomada pelos ingleses, que foi aprisionada e executada Joana d'Arc, em 30 de maio de 1431.

 A Catedral de Ruão ficou com boa parte de sua composição destruída pela brutalidade da Segunda Guerra Mundial

Felizmente, o perído renascentista reservou prosperidade para o local outrora devastado pelas tragédias. A economia teve seu desenvolvimento graças à pesca, o sal e a tecelagem, com esta última atividade inclusive gerando relações comerciais com o Brasil, já que havia um forte interesse dos comerciantes do ramo pelo pau-brasil, que proporcionava o pigmento vermelho necessário aos tecidos.
Mas o período de crescimento voltou a ter um forte retrocesso nos séculos posteriores. Pouco influenciada pela Revolução Francesa, Rouen chegou a um nível altíssimo de pobreza no século XVIII, onde dentre um total de 80 mil habitantes, 50 mil deles (!) eram considerados indigentes.
Seguindo a tendência mundial da época, a cidade passou a se industrializar no século seguinte, o que gerou a construção de fábricas de tecidos, chegada de tens, museus, teatros. Enfim, havia uma prosperidade paralela no que se refere à cultura.

 A Igreja de Saint-Maclou é mais uma das obras arquitetônicas milenares de Rouen

No entanto, a história de Rouen sofreria mais um baque, causado pela famigerada Segunda Guerra Mundial, onde a cidade foi invadida em 1940 pelas forças nazistas e bombardeada severamente, o que resultou na morte de aproximadamente 2 mil pessoas. Ela seria libertada somente quatro anos mais tarde, pelas tropas canadense. A partir daí, como em várias outras praças destruídas pela guerra, foi iniciado um processo de reconstrução da cidade.
Hoje, Rouen parece ter se livrado do passado doloroso e se configura como uma cidade tranquila, onde prevalecem as construções históricas, um centro revalorizado e livre da circulação de carros em alguns pontos. A cidade é palco de importantes pontos turísticos, como a Catedral de Ruão, a Igreja de Saint-Maclou, o jardim botânico, a universidade local e uma série de museus que ajudam a manter forte sua farta  memória bimilenar.
O automobilismo em Rouen também não se liga somente ao circuito homônimo. O piloto Philippe Étancelin foi um dos corredores do primeiro GP da história da F1, em 1950, e é até hoje o piloto mais velho a pontuar em uma corrida da categoria, ao somar - aos 53 anos de idade - 2 pontos no GP da Itália daquele mesmo ano, frutos de um 5º lugar obtido.

 A Catedral de Ruão é até hoje visitada por milhares de turistas

Além de Étancelin, o famoso jogador de futebol David Trezeguet, ídolo da Juventus e da seleção francesa nas décadas de 90 e 2000, também é um cidadão natural de Rouen.
Como podemos ver, Rouen mostra como que uma cidade, mesmo com fortes altos e baixos, pode se reerguer tantas vezes e permancer sólida por milênios. Um lugar que criou herois também dentro das pistas, mas este é um capítulo que fica reservado para nosso próximo texto.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Uma vila pacata e com espírito automobilístico

Muitas vezes acreditamos que ao redor de um autódromo se envolve uma cidade tomada pelas exigências do mundo capitalista e refém das infinitas modernidades. Metrópoles recheadas de grandes construções, pólos tecnológicos, vida urbana agitada, alta população e agito são apenas algumas das características dos grandes municípios desenvolvidos.
Mas ainda há espaço para a tranquilidade e fuga do convencional. Aquele famoso lugar pacato, longe dos problemas da selvageria de uma civilização cada vez mais fomenta pela correria lucrativa do dia-a-dia. Melhor ainda seria juntar toda essa calmaria ao ronco dos motores de competição, única exceção quando o assunto é barulho em alto tom.
A diminuta vila de Elkhart Lake traz o sossego ausente nos grandes centros urbanos
Pois bem, esse lugar existe e se chama Elkhart Lake. Nada de maravilhas arquitetônicas luxuosas como Dubai, muito menos a correria do trânsito e do fluxo de pedestres de Tóquio ou São Paulo. Pelo contrário, Elkhart Lake é tão pequena, mas tão pequena que é daquele tipo que quando um acidente acontece, vira fato comentado por dias a fio.
O estado norte-americano de Wisconsin abriga a pequena vila, que até hoje mantém a aparência antiquada típica dos pequenos vilarejos estadunidenses. A modesta população de 1021 habitantes (segundo o censo de 2000) possui forte influência europeia, principalmente dos alemãs, já que 55% dos moradores do vilarejo são de origem da terra de Schumacher.
Pertencente ao Condado de Sheboygan, Elkhart Lake só foi ganhar alguma notoriedade na década de 50, quando começou a sediar eventos de corrida nas estradas da região para posteriormente passar ao autódromo de Road America, história que já contamos no nosso texto anterior. Inclusive, o circuito se encontra a algumas milhas na região sul da vila.
O tradicional concurso da revista Road & Track sempre reúne um grande número de carros no vilarejo
Os diminutos 3,3 km² de área territorial fazem da pacata vila um local com alta densidade demográfica, na casa dos 305,6 hab/km². O que não dá para negar é que sua população não vive no conforto apenas proporcionado pela distância do estressante cotidiano das metrópoles. A renda per capita de sua população chega a ótimos US$ 27.873.
Obviamente, o autódromo de Road America acabou se tornando o principal item de atração turística ao local, atraindo milhares de fãs e torcedores nos grandes eventos automobilísticos. No entanto, nem só de corridas vive Elkhart Lake. Anualmente, a conceituada revista Road & Track realiza o Concours d'Elegance, um concurso de automóveis onde os carros participantes saem do circuito de Road America e estacionam pelo vilarejo. Os candidatos são julgados pela revista, que escolhe o carro mais belo do festival. A atração reúne sempre muitos fãs no local, que tomam conta das ruas do vilarejo.
As construções antigas e a presença da natureza são o panorama dominante em Elkhart Lake
Além da paixão pelos veículos, Elkhart Lake proporciona a seus moradores e visitantes muitos programas culturais e esportivos, como o belo Aspira Spa, o belo complexo de golfe Quit Qui Oc Golf Club, uma variedade de esportes aquáticos e muita música ao vivo.
Tudo isso aliado a um ótimo padrão de vida e estrutura oferecidos aos seus habitantes, como educação, segurança, lazer e qualidade de serviços. Certamente, eles não têm do que reclamar!

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Um pouco de história: Road America

Nesta fase final da sua 7ª temporada, o GPL Brasil deixa as terras europeias e parte agora para a terra do Tio Sam, onde as máquinas de 1965 irão roncar seus motores neste próximo domingo, 23 de maio. O palco do próximo espetáculo só não chega a ser uma unanimidade na aprovação dos fãs do automobilismo devido ao fato do circuito de Road America se localizar nos Estados Unidos, terra não muito tradicional no palco da F1 e vista com olhares tortos por muitas pessoas.
Mas, se por um lado os ciruitos norte-americanos desagradam pelo excesso de pistas ovais, traçados de rua ou alguns mistos sem tantas emoções. Road America é uma enorme exceção à regra. Um circuito à moda antiga, diria, já que o traçado relativamente longo contrasta com uma paisagem repleta de verde, curvas de todos os tipos, subidas e descidas, pontos de ultrapassagem. Enfim, um traçado completo.

O traçado atual de Road America se mantém praticamente inalterado desde sua criação, em 1955
Chamado por muitos de Elkhart Lake - cidade onde o autódromo se localiza -, o circuito permanente teve suas origens na década de 50, completando quase 60 anos de história. Mas a história das corridas em Elkhart Lake remete a um passado de alguns anos anteriores.
Nos fins da década anterior, a realização de corridas em estradas estava se tornando popular nos EUA. Como não poderia deixar de ser, o Sports Car Club of America da região de Chicago, em parceria com a Vila de Elkhart Lake, organizou a primeira corrida no local em 1950. Usando seções de estradas dos arredores da vila, o percurso consistia em 5,3 km, e seria utilizado somente naquela ocasião.
Nos dois anos subsequentes, ainda foram utilizadas fragmentos de estradas e rodovias, mas desta vez com traçado maior, com mais de 10 km de comprimento. No entanto, uma tragédia ocorrida em Watkins Glen no ano de 1952 - no qual um espectador morreu e outros ficaram feridos em decorrência de um acidente - fez com que o país banisse as competições usando estradas públicas.
Seção onde se situava a linha de largada/chegada do traçado original utilizado no início dos anos 50
A saída então para os estadunidenses foi recorrer aos autódromos privados. E com Elkhart Lake não foi diferente, tampouco demorado. Logo em 1955, Cliff Tufte deu forma ao circuito que conhecmeos atualmente. Em mais de 50 anos de história, o traçado se revelou tão competitivo e atraente que praticamente não foi alterado, salvo pequenos ajustes ou reformas para modernizá-lo e deixá-lo mais seguro.
Ainda no mesmo ano, Road America recebeu seu primeiro evento, organizado pelo Sports Car Club of America. Em 1956, um grande passo na notoriedade do circuito foi a recepção à NASCAR, principal categoria do país. Mas foi a partir de 1982 que o autódromo se tornou conhecido mundialmente. Os carros da Indycar Series desembarcaram no circuito e permaneceram por lá até 2007, já sob os domínios da então enfraquecida Champ Car.
A saída dos monopostos não tirou o brilho de Elkhart Lake, já que desde 2002 a American Le Mans Series realiza etapas no local com sucesso. Além disso, outras importantes categorias de turismo já passaram por lá, como a Grand-Am, a Can-Am e a IMSA, além de eventos históricos, como a Historic F-1.
O circuito recebeu a Indycar e, posteriormente, a Champ Car por mais de duas décadas
Mas como tudo não se resume apenas ao automobilismo, Road America também teve seu espaço para outros eventos, como o Tour de Road America - Bike Ride to Fight Cancer, evento de ciclismo e pedestrianismo para arrecadar fundos para instituições de tratamento de câncer, como a Fundação Lance Armstrong. Até mesmo eventos de patinação inline são realizados no local, como a Road America Inline Challenge.
Mesmo com o avanço da tecnologia e da segurança nos autódromos mundo afora, Road America é tido até hoje com um circuito muito perigoso, devido ao fato de possuir seções muito rápidas e longas retas. O atual traçado, com 6515 metros e 14 curvas, proporciona facilmente velocidades acima dos 300 km/h. Recentemente, alguns graves acidentes ocorreram no local, como o do brasileiro Cristiano da Matta, que atropelou um cervo em um teste em 2006, ficando seriamente ferido e voltando às pistas após considerável tempo de recuperação.
Eventos como a Historic F1 também fazem parte das atrações do autódromo
Outra imagem chocante no circuito foi o acidente da inglesa Katherine Legge, no mesmo ano pela Champ Car. Após perder o aerofólio traseiro, seu carro foi projetado com violência brutal para o muro e praticamente se desintegrou no alambrado. Felizmente, a gravidade do ocorrido se resimiu apenas à plasticidade do choque. A mesma sorte não teve o kartista Adam Schatz, morto em 2008 após um sério acidente com outro competidor na reta principal, onde foi ejetado de seu veículo após atingir fortemente o muro.
Além do traçado em si, outra grande atração em Road America é a acessibilidade ao público e o clima encontrado no autódromo. O circuito traz à tona o verdadeiro espírito do automobilismo, com espectadores se alojando pelos montes de grama em volta do traçado, acampando nos arredores da pista, cenário típico de muitos autódromos estadunidenses.
Entrada de boas-vindas do circuito
Road America é fiel às suas origens, respira automobilismo, e é isso que o faz um dos circuitos mais reverenciados da América, muitas vezes aclamado e apontado pelos fãs como o local mais apropriado dos EUA para receber a Fórmula 1. Eles tem razão!

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Um pouco de história: Circuit de Charade

Olá amigos e seguidores da GPL Brasil!
Como sabemos, nossa última etapa foi realizada no aeródromo de Albi, como fora tantas vezes citado nos textos anteriores. Pois bem, o próximo desafio das máquinas e pilotos da liga difere muito das curvas suaves e sem alterações de relevo de Albi. Se fossem seres humanos, diria que entre o último circuito e Charade - palco da próxima etapa - a única semelhança seria o branco dos olhos.
Como não são de longe dotados de vida, resumimos as coincidências, que são raras, aos aspectos geográficos. Nossa estadia se prolonga por terras francesas, dessa vez aos arredores montanhosos próximos a cidade de Clermont-Ferrand e o departamento de Puy-de-Dome. Montanhas que fazem o charme do circuito trinomial, conhecido por uns como Circuit de Charade, por outros como Circuit Louis Rosier, e por terceiros como Circuit Clermont-Ferrand.
Traçado original de charade, utilizado pela última vez em 1988
Independente da nomenclatura utilizada, a história de Charade se resume aos fins da década de 50. Elaborado nas proximidades de um extinto vulcão e sob os domínios das montanhas de Auvergne, o traçado original da pista consiste na junção de fragmentos de estradas da região, totalizando 8055 metros, dotados principalmente de curvas de baixa velocidade, alterações súbitas de relevo e pouquíssimas áreas de escape.
Tais características atribuíram à ela o honroso apelido de mini-Nürburgring, dadas as semelhanças com o famoso reduto automobilístico alemão. Porém, Charade acabou se estabelecendo como uma versão ainda mais sinuosa e rápida que sua co-irmã.
O circuito passou a receber suas primeiras atividades em 1959, quando anfitriou eventos de motociclismo nacionais, que perduraram ininterruptamente até 1967, para depois voltar a ter aparições esporádicas na década de 70. Se os desafios de Charade já eram notórios mesmo com os veículos de duas rodas, a adrenalina subiu ainda mais quando os famosos monopostos passaram a desafiar os perigos das montanhas de Clermont-Ferrand.
 Mike Hailwood foi um dos grandes motociclistas a correr no traçado antigo
Primeiro foi a vez dos Fórmula 2. Já no fim dos anos 50, estes carros passaram a competir no circuito. Em 1964, foi realizado mais uma edição da categoria no traçado, o VI Trophée d'Auvergne, que reuniu pilotos do calibre de Denny Hulme, Jackie Stewart e Jochen Rindt. Estes, detentores do pódio na ocasião, deram sinais do que ainda estaria por vir nos próximos anos.
Dito e feito! Logo no seguinte, as feras voltaram à região, desta vez trazendo consigo as máquinas da Fórmula 1, prontas para correrem pela primeira vez no circuito. A corrida foi um tremendo sucesso, ainda mais para o lendário Jim Clark, que só não fez chover naquela oportunidade, já que dominou as ações do início ao fim, fazendo pole, volta mais rápida e vitória com sua Lotus-Climax, relegando a BRM de Jackie Stewart ao trono de "primeiro dos mortais".
 Jim Clark dominou a primeira aventura da F1 por lá, em 1965
Em 1966, nada de F1. Mas um fato curioso marcou as dependências do circuito. O diretor John Frankenheimer realizou filmagens do conhecido filme "Grand Prix" em frente a aproximadamente 3 mil fãs locais que posaram como espectadores para realização das imagens.
A verdade é que, por mais interessante e desafiador que fosse o Circuit de Charade, ele nunca foi figurinha carimbada na maior categoria do automobilismo. Caracterísitico da época, o Circuito Louis Rosier fazia um revezamento com outros traçados franceses, como Rouen e Le Mans, por exemplo. Por isso mesmo, apenas em quatro oportunidades Charade sediou uma etapa de Fórmula 1, sendo a derradeira delas em 1972, quando Jackie Stewart triunfou. Nas edições intermediárias, em 1969 e 1970, coube também a Stewart e Rindt, respectivamente, ditarem o tom das ações.
 Seção do antigo traçado, hoje não mais utilizado
Com o avanço dos carros da F1, o traçado foi se tornando inapropriado e estreito demais para os padrões da categoria. Aliás, a sinuosidade do trajeto era tanta que alguns pilotos, como Jochen Rindt, sofriam com a cinetose, causadora de náuseas, perda de equilíbrio e enjoos. Para isso, alguns pilots, como o próprio Rindt, deixaram de usar os capacetes fechados para utilizar os antigos abertos, de forma a facilitar a respiração e ventilação.
Desde então, Charade passou a sediar competições de menor porte, como turismo, Fórmula 3 e eventos de rally. Na década de 80, o traçado original passou a ser criticado pela impossibilidade da instalação de áreas de escape, tanto que em 1980 três fiscais de pista morreram em decorrência de um acidente. Os protestos dos pilotos fizeram a organização do circuito tomar novas medidas e desativar o traçado original, que recebeu sua última corrida no dia 18 de setembro de 1988.
 A F1 se despediu de Charade em 1972, quando Jackie Stewart ganhou sua segunda prova no circuito em um total de quatro edições disputadas
Depois disso, um novo traçado, que abrange parte do original, no seu setor inicial, foi construído para continuar recebendo eventos de velocidade. Reduzida, sua extensão passou para modestos 3975 metros, que continua até o dias de hoje anfitriando corridas de F3 e turismo, bem como demais competições locais. Junto ao autódromo remoldelado, existe uma pista de terra de 1300 metros de comprimento, usada para eventos de rallycross.
Uma curiosidade envolvendo Charade remete à fabricante de carros Daihatsu, que lançou em 1977 um modelo homônimo ao circuito, em homenagem ao traçado. O Daihatsu Charade foi um dos sucessos de vendagem da marca por muitos anos e teve sua produção descontinuada em 2000.
Atualmente reduzido em sua extensão, Charade tem como característica a paisagem tomada pela neve nas épocas frias, construindo um belo cenário
Mesmo mutilado como muitas pistas mundo afora, a memória e a beleza única das montanhas de Auvergne estarão sempre presentes nas páginas do automobilismo. Beleza, que um dia fora exaltada nobremente por Stirling, ao opinar que "não conheço nenhum circuito mais belo que Charade". Se sir Moss falou isso, então tá falado!

sábado, 1 de maio de 2010

Uma história de milênios, lutas e tradição


Dando continuidade à nossa série de postagens sobre Albi - palco da próxima etapa da 7ª temporada da GPL Brasil - nosso foco nesta publicação é conhecer um pouco mais sobre a cultura, as curiosidades e peculiaridades que esta histórica cidade francesa possui, em sua longa história.

A trajetória do surgimento das corridas e do circuito do município todos vocês já sabem. Agora, as memórias de Albi nos remetem a um longínquo passado milenar. A origem do nome da cidade gera controvérsias, já que suposições apontam que a nomenclatura deriva do prefixo celta "Alp" (que significa local escarpado), enquanto outras hipóteses remetem a uma associação para o nome "Albius", um cidadão notável que viveu na região na época romana, e para o termo "alba" - derivado do latim - que faz elo aos penhascos dos entornos da cidade.

Vista da catedral da cidade, a partir da Ponte Antiga

Mas, achismos à parte, o início da civilização albigense data de mais de dois mil anos de existência. Segundo estudos, o território de Albigeois foi conquistado pelos romanos no anos 51 a.C., embora indícios apontem que a região se tornou apenas uma base modesta das forças de Roma.

Margeada pelo rio Tarn, Albi só foi iniciar sua expansão de forma mais significativa depois de um milênio, quando - em 1040 - foi construída a Pont Veux, ou a chamada Ponte Antiga, fato crucial para a expansão das riquezas e urbanização do terrítório.

Porém, o fato mais marcante da história de Albi aconteceu nos séculos XII e XIII, quando o local foi importante centro de propagação do movimento cátaro, uma seita cristão politeísta, considerada herege e reprimida pela Igreja Católica. A disseminação da ideologia contrária aos princípios católicos culminou com repressões violentas na chamada "Cruzada Albigense", que durou 35 anos e resultou numa enorme série de mortos e o enfraquecimento dos cátaros.

Curiosidade: A banda de heavy metal Iron Maiden lançou em 2003, no seu disco "Dance of Death", uma canção chamada Montsegur, cujo conteúdo conta a história da Cruzada Albigense.

A Ponte Antiga possui quase mil anos e foi marco na expansâo econômica de Albi

Após esta violenta passagem, foi construída a obra que está entre os maiores marcos da civilização albigense. A catedral Sainte-Cécile d'Albi (chamada também de "Catedral de Albi") é uma impressionante obra arquitetônica constituída de pedras, cuja construção tem como marco ter durado quase 200 anos! Precedida por outras construções oriundas desde o século IV, a atual configuração gótica teve seu levantamento iniciado em 1282 e finalizado somente em 1480. Hoje, a catedral é um dos mais cobiçados pontos de visitação turística da cidade, assim como a velha ponte, o museu de cera e algumas casas históricas típicas da região.

Atualmente, a cidade - situada a aproximadamente 85 km de Toulouse - ainda possui na sua economia resquícios de uma época em que a cultura do carvão dominava as atividades da região. Mas desde os anos 90 o local se tornou notável pelos seus braços universitários, reagrupados em 2002 no Centro Universitário Jean-François Champollion. Outra atividade que ajuda no desenvolveimento da região é a indústria de laboratórios farmacêuticos Pierre Fabre.

A Catedral de Santa Cecília levou quase 2 séculos para ser construída e é uma das parincipais atrações turísticas da cidade

Entre as famosidades ligadas à comuna, podemos destacar o atleta Romain Mesnil, vice-campeão mundial no salto com vara em 2007; Georges Pompidou, presidente francês entre as décadas de 60 e 70; e Henri de Toulouse-Lautrec, renomado pintor do país durante o século XIX.

Além do automobilismo, a população albigense conta com a presença de dois times de rugby (SC Albi e RC Albi), esporte popular por aquelas bandas, além de ter sediado uma etapa da tradicionalíssima Volta da França em 2007, competição de ciclismo mais famosa do mundo.

Além das corridas, o aeroporto de Albi recebe aeronaves de pequeno porte

É nesta mescla de novas atividades e contraste com suas origens que o pouco mais de 50 mil habitantes de Albi mantém suas tradições e paixão pelo automobilismo. Com certeza, um local imperdível para se visitar.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Um pouco de história: Circuit d'Albi

Saudações aos amigos e fãs da GPL Brasil!

Como podemos acompanhar pela movimentação em nosso fórum, a 7ª temporada da liga vai chegando aos seus derradeiros e decisivos momentos. Os carros de 1965 estão há poucas semanas de saberem quem será o campeão do certame. E, nesse embate pela taça, envolvendo principalmente os concorrentes John White, Fernando Tumushi e Alex Ortiz, o próximo circuito do calendário pode ser um divisor de águas na ferrenha disputa.

Neste próximo domingo, 2 de maio, máquinas e carros desembarcarão na França para a disputa da 10ª etapa de um total de 14 previstas. E o palco do ronco dos motores já é velho conhecido da maioria dos participantes. O circuito de Albi aos poucos tornou-se presença cativa no calendário da GPL Brasil e também caiu no gosto dos pilotos.

Foto aérea do Circuito de Albi, antes de sua última reforma, em 2009

Mas o que faz de Albi um lugar tão aclamado e bem cotado? Os ingredientes podem ser muitos, mas podemos destacar alguns que são cruciais neste sucesso de aprovação, que sempre proporciona bons eventos. É o que você saberá nas próximas linhas, conhecendo um pouco de sua história, suas características e até mesmo algumas curiosidades.

Mas como diria o velho pleonasmo, vamos começar do começo! E o começo nos remete a um longo passado, mais precisamente numa viagem ao tempo para 80 anos atrás. Pois bem, neste ano de 2010 uma série de eventos e reformas no circuito comemoram e preservam uma memória longeva do tradicional local, situado próximo à cidade de Le Séquestre, no sudoeste francês. Mas engana-se quem pensa que sua história se resume apenas aos entornos do aeródromo de Le Séquestre

Os fins de 1927 reservaram conversas entre grupos de motociclistas pelas redondezas de Albi. Entre algumas das pautas, surgiu a ideia de expressarem todo seu fanatismo e paixão pelas corridas. Foi o embrião de uma associação criada em 1928 e que começou a tomar forma dois anos depois, sob o nome de Moto Camping Club Albigeois, ou simplesmente MCCA. Vale lembrar que o termo "albigeois" nos remete ao português "albigenses", como são chamados os naturais daquela cidade.

Com uma estrutura mais organizada e focada, a associação trouxe aos albigenses o primeiro evento automobilístico por aquelas bandas: a escalada (ou hill climb, como chamam os fas do segmento) de Mascrabière, em 1930. Assim como o primeiro evento, o primeiro Grande Prêmio oficial não tardou a ser realizado.

 Traçado da primeira corrida, realizada nas estradas da região em 1933

Em 1933, foi debutado o primeiro evento em caráter de Grande Prêmio. O traçado, embora presente pelas redondezas daquela região, nada tem a ver com o aeródromo atual. Uma série de estradas montavam o percurso de mais de 9 km, passando pelas proximidades de Albi, Saint-Juery e Montplaisir. Oficialmente, o traçado carregava a nomenclatura de Circuit des Planques. Coube ao piloto local Pierre Veyron vencer o primeiro GP da história de Albi (e também dominar as ações em 1934 e 1935).

Logo após o primeiro ano, uma modificação no traçado. O hairpin próximo à Albi fora antecipado, para dar lugar às tribunas recém-instaladas onde previamente havia pista. Com isso, a extensão do traçado diminui alguns metros, sendo quase de 9 km.

O ano de 1946 foi um marco na história da caompetição naquele local. Pela primeira vez, vários grandes pilotos de nível mundial passaram a competir no GP francês, entre eles o lendário italiano Tazio Nuvolari que, a bordo de sua Maserati, venceu com autoridade o evento, que contou com a participação do também aclamado Luigi Villoresi, dono do melhor giro da prova naquela edição.

Largada da edição de 1947 do GP, que já contava à essa altura com grandes nomes do automobilismo mundial

O circuito continuou sediando eventos - embora sempre em caráter não-oficial para campeonatos - e recebendo grandes nomes das pistas daquela época, como Juan Manuel Fangio, Maurice Trintignant, Giuseppe Farina e inclusive o brasileiro Chico Landi, que conduziu uma Ferrari na edição de 1952 a um brilhante segundo lugar, atrás apenas de seu colega de equipe italiana, Louis Rosier.

O ano de 1954 reservou uma profunda mudança no trajeto do circuito. Renomeado então para Circuit Raymond Sommer, o percurso foi reduzido para econômicos 2991 metros, ainda mantendo algumas seções do velho traçado, como pode ser visto na ilustração à esquerda.

Mas as mudanças não duraram por muito tempo. O desastroso e trágico acidente em Le Mans em 1955 foi estopim para que as atividades em Albi fossem interrompidas, visto o trauma vivenciado no mesmo país, que culminou com dezenas de mortos.

O hiato de competições na região albigense durou até 1959, quando os motores voltaram a roncar no aeródromo próximo ao antigo local de disputas. A configuração do traçado entornava a principal pista de pouso e decolagem de aviões e é configuração - intitulada Circuit du Séquestre - bastante conhecida pelos fãs de corridas, com extensão de 3636 metros e duas longas retas, mesclando com curvas travadas e outras de raio longo.

A nova configuração chamou a atenção dos pilotos e em 1964 começaram a serem disputadas corridas de Fórmula 2 pelo ágil e desafiador traçado, cabendo ao mítico Jack Brabham ser o primeiro triunfante à bordo dos carros semelhantes aos F1. Embora rumores apontassem para a realização de uma corrida de Fórmula 1 no circuito para o ano de 1970, o Circuit Du Séquestre jamais recebeu tais máquinas, se resumindo apenas à eventos de F2, que perduraram até 1973, com o italiano Vittorio Brambilla colocando seu nome na história como o último vencedor do evento, guiando um March 732 - BMW. Evento, aliás, que contou com feras como Emerson Fittipaldi, Ronnie Peterson, José Carlos Pace, Jochen Mass e John Watson.

Jochen Rindt e sua excêntrica Brabham participaram do evento de F2 realizado no circuito, no ano de 1968

Desde então, o Circuito de Albi passou a receber categorias de menor expressão, como F3, caompetições de turismo, fórmulas juniores, motociclismo e eventos de encontros de automóveis. Em 1985, a mesma associação que proporcionou as primeiras emoções à população local se tornou no Comitê de Gestão do Circuito de Albi (CGCA) e passou a cuidar da manutenção do local.

Visando aumentar a segurança do traçado, em 1988 o circuito recebeu uma chicane dupla na sua reta principal, fato lamentado por alguns fãs. A partir desta modificação, outras reformas vieram, como a criação de duas novas chicanes, sendo a última delas em 2009, ano em que o circuito passou pela sua última modificação.

Para as comemorações dos 80 anos da criação da associação, estão programados uma série de eventos no aeródromo, como um encontro de Peugeots antigos - marcado para junho -, o 68º Grande Prêmio de Albi (com competição de carros de turismo) e a final do Campeonato Francês de Superbike, ambos os dois últimos marcados para o mês de setembro.

Atualmente, Albi sedia uma série de eventos de categorias menores, como turismo, monopostos e motociclismo

Diante de tanta história de várias décadas, é gratificante observar que o Cuicuito de Albi está mais vivo do que nunca, sendo reformado e, principalmente, preservando a memória de tantos bons e saudosos eventos que um dia embalaram e continuam o fanatismo dos albigenses pelos carros e motos. Os francófonos de plantão podem visitar o site oficial do circuito e conhecer demais histórias e informações sobre o local.

Essa é a primeira de uma série de postagens sobre Albi que iremos publicar no decorrer desta semana, que antecede a realização da corrida. Espero que sirvam para aquecer as expectativas de todos e, claro, sempre acrescentar conhecimento. Até a próxima!